CONTADOR

sábado, 11 de outubro de 2008

A JANELA



A JANELA

Há uma janela que não respira
Amorfa, sem vida
Que olha da parede para mim.
Não resguarda gente do frio
Não se abre para o jardim
Meio esgotado e selvagem.
A magia daquela janela
É não querer ser ela.
Sim, uma janela mostra o interior
Escancara-se para o exterior
Geme nas ferragens
E faz-se carcomida nas madeiras
Mas tenta representar pessoas, sensações, luz.
Aquela janela meus calafrios produz
Para além de imaginações perversas
Um verdadeiro estertor
Uma agonia sem arquitectura nem brios
Sem reposteiros ou cortinas de renda
Onde o pó cresce em camadas
E os gatos não se aproximam
Mostrando seus olhos celestes
E seus veludos de pelo.
Aquela janela suscita-me o nada
O vazio
Um torpor frio
De um sem abrigo
E há ali praga, abismo, inimigo
Que lhe põe mau olhado
Que lhe tirou o bafo, as vozes, os movimentos.
Não mostra mulher ou homem no seu interior
Nem crianças, nem velhos
Nem canário empoleirado
Nem quadros pendurados
Ou um pano correndo meigo pelos vidros
A limpá-los da sujidade acumulada
Mostrando o esqueleto que a trás emoldurada
E perra talvez, quem sabe.
Não mostra mulher de pijama ou nua
Nem homem de tronco aberto ou camisola interior
Ou idosa de carrapito fazendo crochet
Nem o saltar na frigideira de uma omeleta
Que seja, para acalentar o estômago enraivecido…
E eu pergunto-me desiludido
O que faz ali aquela janela
De olhos tristes… corpo abandonado?

Numa parede esquadrinhada
Sabe-se lá quando e por quem
Ela consome-se no tempo
Empena-se nas intempéries
Suportando ventos agrestes
Na companhia de uma acácia, dois ciprestes
E tendo ainda a admirá-la um banco de jardim
Onde os cães mijam quando a lua vem no fim
De cada tarde morna que a bafeja.
Não há vida que se veja
Casa adentro e a porta tem ferros a trancá-la
Mostrando que a casa se cala
Desde há muito
Sem palpitações
Como que num estado de coma
Alheado a tudo e a todos
Em melancolias tais
Indiferente aos vendavais.
Cada vez que ali paro admiro a sua postura
A envelhecer de madura
E de tristeza.

A última vez, com os olhos e a alma
Ganhei forças, perdi a calma
Quando a vi
E arranquei-a para que não se tornasse
Mais um escombro, um esqueleto
E em moldes de cântico de velório
Tentei oferecer-lhe frescura
Pintei-a, fiz uma moldura na sua moldura
Pendurei-a no escritório.

Surrealismo, 08.09.2008
Mario Matta e Silva

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