CONTADOR

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

PSICANÁLISE


PSICANÁLISE À REPÚBLICA


Andando assim descontente
Triste, de cara fechada
Achou ser mais previdente
Passar a ser vigiada.
E a República assim fez
Com esperança na Psicologia
Foi para o divã desta vez
Tentar nova terapia.
A psicóloga, entendida
Na consulta a recebeu
Quis saber da sua vida
E a República acedeu.
As angustias desabafou
Face às crises sucessivas
Gesticulou e chorou
De voz trémula mas expressiva.
Ajeita o peito desnudo
Aperta melhor a faixa
E esconde o corpo carnudo
No divã onde se encaixa.
Foi longa e atormentada
Toda a sua narrativa
Falou de tudo, coitada
Sem guardas nem comitiva.
Mas do mais que se queixou
Com Freud no pensamento
Foi do povo, que a levou
Ao maior role de lamentos.
E nessa amarga desdita
De séculos tão conturbados
Lembrou Fátima bendita
Todos os transes, os fados.
O povo trá-la inquieta
Em depressão sem brandura
Por saber quanto a afeta
Tanto doutor sem cultura.
Depois do Sebastião
Tantos reis, tantas Rainhas
De bom ou mau coração
Consumindo-se em ladainhas.
Duques, Condes e Marqueses
Almas brandas ou danadas
Ricos ou arruinados por vezes
Ostentando suas mansardas.
Lutas ferozes, ideologias
Liberais, conservadores
Muitos bastardos e ousadias
Nas intrigas, nos amores.
Josés, Joões ou Maneis
E Antónios nem se fala
As cadeias, os quartéis
Chapéus de coco, bengala.
Desbragada burguesia
Moderados, extremistas
Todos em grande euforia
Poetas, bêbados, fadistas.
Ditadores e democratas
Gente rica na avareza
Na Banca só acrobatas
E uma escondida pobreza.
Para onde vou nunca sei
Sempre assim fragilizada
Meti-me na Europa e ganhei
Tantos subsídios para nada.
Governos se sucedendo
Qualquer deles gasta e se avia
E todo o povo vivendo
Pasmado em demagogia.
Desabafando, coitada
A República, em seu mutismo
Chora a Pátria acorrentada
Ao mito do sebastianismo.
- O que é que faço doutora?
Tudo tento e não acerto…
- Tenha Fé, virá a hora
De voltar esse Encoberto!


Julho 2008
Mário Matta e Silva

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