CONTADOR

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

AS ÁRVORES E O CARACOL



AS ÁRVORES E O CARACOL


Como vai a vida?
A vida não vai. Ela cresce aqui, nos ramos, nas folhas, nos frutos…
Contada por segundos, minutos, horas, anos
Ora molhados, ora enxutos;
Pelo número de folhas, de frutos e de flores
No desbotar das cores.
A vida são as nossas copas, conquistadas em enganos e desenganos
De muita passarada
Nelas poisada.
O tempo é feito de sangue, essa seiva que nos percorre desde a raiz
E da harmonia que criamos pelas matas, lúgubre, misteriosa mas feliz…
Nosso coração palpita compassadamente
Não ao ritmo dessa humanidade, agreste, louca, doente.
Nós somos amigas certas, permanentes
Do Universo todo
Respiramos e fazemos respirar a nosso modo
Até que nos matem
Ou não nos tratem
Como deveriam.
Em cada sonho desfeito
Vai-se acolchoando o leito
De folhas esvoaçando desprendidas
Procurando cada semente suas próprias vidas
Seu caminho
Depois de se fartarem do nosso carinho
E vão até ao fim do mundo
Em trabalho fecundo!

Enquanto as árvores entre si assim filosofavam
Os riachos, bons ouvintes, se calavam
Os sinos ao longe não repicavam
Os homens não as perturbavam

Então esfuma-se o dia
A noite cai em sua melancolia
Húmida e fria
E as árvores emudecidas
Recolhem-se em orvalhadas embevecidas
Sem o fascínio do sol…
A lua por sua vez, bate no caminho
E nele, devagarinho, muito devagarinho
Coçando a cabeça, sem se agitar
Depreende em todo este filosofar
Um paciente e incrédulo caracol.

Mário Matta e Silva

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