CONTADOR

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009


A Lágrima


Vagueei naquela rua batida
De gentes cansadas, transfiguradas.
Vi homens nojentos, mulheres da vida
Com expressões ausentes, desenganadas.
Recantos por onde Deus nunca andou
Descurando impiedoso estes seus mundos!
E mais: nem uma lágrima deitou
P’ra chorar seus eventos tão imundos.

Através duma porta entreaberta
Espreitava um menino sujo, assustado
Olhando quem passava, num alerta
De quem está sempre só, esfomeado.
Senti-me fútil ave enternecida
E uma caustica lágrima rolou
Sulcando minha crença enegrecida.
A impotência em mim se enraizou.

Aventurei-me mais p’la rua escura.
Num canto malcheiroso estava um cão
Roendo escanzelado côdea dura
De olhar ferido, sem consolação.
Senti tamanha dor e destempero
Que soltei um grito indignado e mudo.
O cão, penetrando meu desespero
Lambeu as lágrimas do corpo ossudo.

Prossegui meu caminho divagando
De corpo e alma mortalmente feridos
Sequei uma lágrima deslizando...
Toda eu de sentidos aturdidos
Constatei que a Mãe Terra é uma enorme
Lágrima azul, em suspensão no ar
E que a imensa dor Humana, disforme
È mão de Deus, cruel, a castigar!

Liliana Josué

1 comentário:

Anónimo disse...

Este poema tem uma sensibilidade muito especial e uma construção perfeita. Tu és uma Poetisa(Poeta)de grande valor e de muita alma pelo que mereces ter um livro só teu e, pelo que eu sei, tens produzido muita poesia com a categoria e a sensibilidade deste poema. Continua e é bom atingirmos objectivos - o livro será até bem encorajador. Parabéns e um abraço Mário