CONTADOR

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

OUTRAS CIGARRAS E OUTRAS FORMIGAS






Olá amigos.

Este blog é essencialmente poético, mas não restrito,também pode abranger prosa poética e de intervenção relacionada que o mundo em que vivemos, por isso não resisti a colocar este texto aqui.
É de um amigo que escreve regularmente para o Jornal da Amadora, aí coloca quinzenalmente um artigo.
Eu gostei e espero que quem o leia também lhe dê o devido valor.
Continua Mário e parabéns.




JORNADA CREPUSCULAR
POR: MÁRIO MATTA E SILVA

OUTRAS CIGARRAS E OUTRAS FORMIGAS

2009, um ano que ainda há pouco começou, cheio de maus presságios a prometer um Inverno bem frio e bem chuvoso. O crepúsculo nem parece o mesmo, sem aquele conjunto de cores que faz a transição para a noite cerrada, na maravilha das constelações em jornada celeste num azul doce. Nada disso. Os dias já vão escuros, frios e húmidos demais para mostrar essa despedida de sóis radiosos e mornos e as noites enluaradas. Neste desaconchego de um rigoroso Inverno não faltam as cigarras e as formigas, umas cantando outras labutando. Em tempo de recessão não admira porém que sejam outras as cigarras e outras as formigas a esgueirarem-se pelo ruído dos noticiários ou da comunicação social em peso, na guerras das audiências (TV e rádios) e das compras (jornais, revistas…) porque o seu poder de persuasão (mais do que de entretenimento) é tão agressivo que nos trás, diariamente, as maiores brutalidades que o País e o Mundo contém, em si mesmo, esvaindo-se em guerras, em assassinatos, em desavenças, em descrenças, em ódios, em calúnias, em subornos, em roubos, em falcatruas, em doenças, em denúncias, em fraudes, em desemprego, em ruína… Por outro lado, esse mesmo dia-a-dia mostra-nos bem falantes, opiniosos, malabaristas, astuciosos, tribunos, defensores de criminosos alegando inocência, prevaricadores procurando impunidades, ladrões e criminosos com direito a liberdade, poderes frouxos, políticos audazes a querer convencer os contribuintes, os arautos da cidadania em bicos dos pés em arremessos de autoridade, os ciosos, os traficantes, os arruaceiros, os gananciosos, os palavrosos… que são, sem sombra de dúvida essas outras cigarras, cantando, botando discurso, fazendo batota. E quando retomo a jornada crepuscular, olhando ao alvorecer a janela, que vejo eu: o corre-corre de quem trabalha a sério (e não à séria) galgando cedo da cama empenhados na garantia de um emprego, que cada vez está mais em perigo. E lá vejo eu os das obras (privadas ou públicas) que lá vão tendo trabalho, os camarários, os professores, os dos serviços de saúde, (indo muitos dos nossos para o estrangeiro e os da América Latina e Espanha a virem para os nosso pais) os das zonas portuárias, os pescadores, os dos trabalhos agrícolas, os dos serviços, os das fábricas (que ainda vão laborando) os do comércio (que vai resistindo) os da administração pública em geral, etc….tudo gente que ainda vai tendo o seu posto de trabalho, o seu ganha-pão, a sua esperança de não falhar os seus empréstimos, as suas prestações…e logo penso onde estão esses milhares e milhares de desempregados, que todos os dias aquela mesma comunicação social mostra com avidez e pormenor, essas vitimas de falências (muitas vezes fraudulentas) esse grupo de gente, que vai todos os dias engrossando, vitima das maiores desgraças e de muitos erros de administração e de poder, que se vê sem salários, à mingua de parcos subsídios todos os dias anunciados pelos políticos, chorando sem fé a sua desdita… estas são as novas formigas. As que não se guindam, filhas da crise, nos ares pestilentos da prosápia, que sofrem por terem perdido o seu trabalho ou por quererem começar a trabalhar! Essas pessoas que já nem sabem em que mundo vivem, que para eles não é capitalista, nem socialista… é tão somente avaro de felicidade, arbitrário na escolha dos abandonados à má sorte, dos sem força, sem ânimo, sem poder. Abandonadas, entregues ao cinismo dos que disputam eleições, dos que decidem, dos que se emproam… essas mesmas, que querem trabalhar, que querem cumprir os seus compromissos, que querem criar os seus filhos, que querem uma vida honrada e feliz, são por certo essas outras formigas…entregues ao livre arbítrio dessas outras cigarras ruidosas, arrogantes, mesquinhas. E todos os dias a comunicação social lança estas miseráveis noticias de desemprego, falando-nos nessas outras cigarras e nessas outras formigas… porque todos os dias há crepúsculo em tempo de recessão!

3 de Fevereiro de 2009

Mário Matta e Silva

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