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segunda-feira, 16 de março de 2009

AGUARELA



Aguarela

Enquanto caminhava deparei com um espectáculo digno dos deuses de gostos mais requintados.
Não pela sua magnificência, mas pela singeleza, constatando que muitas vezes ali passara sem que realmente nada tivesse visto, na pressa da minha vida.
A planície era um manto longo a deixar de se ver. Papoilas vermelhas de olhar atrevido salpicavam o extenso tapete verde. O sol, estrela imponentemente e estática, ruborizava ainda mais essas frágeis criaturas, ao mesmo tempo que doirava os pequenos mal-me-queres que por ali se espraiavam.
Alguns chorões deixavam que a brisa acariciasse suas macias cabeleiras, num rostilhar de perpétuo alívio e bem estar, murmurando segredos que só ela entendia.
E os gira-sois, que seres simpáticos e divertidos, de grandes olhos castanhos enfeitados de loiras pestanas, cantavam o sol em felicidade suprema e, quando ele partia, baixavam suas cabecitas e adormeciam rezando para para que nunca lhes faltasse.
Prestei mais atenção em meu redor e deparei com duas delicadas borboletas, de sedosas
asas brancas, poisando num discreto lírio cor de marfim, acasalando felizes. Todos os outros lírios viraram suas corolas em direcção ao pequeno riacho num sorriso envergonhado.
Este, corria um tanto travesso por entre as pedras, suas companheiras, vestidas de verde musgo e adornadas por avencas.
Não resisti por muito tempo a descalçar meus pés e mergulhá-los nessa água de cristal. Arregacei a comprida saia azul- marinho sarapintada de cerejas encarnadas, tirei o chapéu de palha decorado com uma fita cor-de rosa e ramo de violetas. Coloquei-o sobre a margem; manta castanha protectora do riacho.
Senti um frio que me arrepiou a espinha, olhei para baixo num pasmo estático e assim permaneci sem tempo. Em seguida, meus pés dançaram num serpentear de água, brincaram lá no fundo, sobre a condescendente areia. Meus dedos ondulantes arrebitaram como meninos traquinas. Deleitada sorri para a o riacho frio, ele numa atitude gaiata devolveu-me esse sorriso.
O arrepio desapareceu e a alegria invadiu-me.
Dei um grito de libertação enquanto meus desgostos eram levados por aquelas regeneradoras águas de mistério.
Pulei para fora do riacho e corri até mais não poder, de saia esvoaçando pelo vento e cabelos flutuando pelo ar.
De exaustão deitei-me sobre a terra quente, senti seu coração a palpitar e o som da vida em permanente actividade.
Apertei-me toda contra ela e, sem saber porquê, chamei-lhe MÃE.

Liliana Josué

2 comentários:

Anónimo disse...

Liliana, li e adorei essa página literária belíssima! Leitura gratificante.... viajei por entre a planície e as águas cristalinas...Adorei!

Daniel Teixeira disse...

Excelente momento, muito bem descrito com muita poesia e envolvimento metafórico. Gosto da sua escrita que a coloca primeiro como observadora expectante (ou inocente) perante um chamamento que já está dentro de si mas que você inicialmente não parece reconhecer para o desvendar depois numa bonita imagem de prazer e alegria.

Parabéns e espero que continue com a mesma trabalhada qualidade e força lírica.

Daniel Teixeira