CONTADOR

quarta-feira, 4 de março de 2009

CONTO - JULIETA









JULIETA


A menina fixou pasmada os cacos espalhados pelo chão. Num repente, aferrou a caixa e alguns estilhaços apanhados ao acaso, deitou a correr escada a cima num pranto magoado, implorando a atenção de sua mãe.
Dos seus grandes e ramalhudos olhos castanhos escorriam grossos fios de cristal. De beicinho esticado murmurava: “mãe ..., mãezinha ....” , mas ninguém lhe respondeu.
Essa mãe, essa mulher, naquele momento, trabalhava no armazém dos grandes senhores. Labuta pesada para qualquer uma, quanto mais para ela, sofrendo daquela maldita ulcera varicosa que nunca a largava, mas a filha tinha de comer.
Tempos difíceis aqueles. A Republica era ainda criança de berço, e as constantes revoltas políticas também não ajudavam muito. Certo dia até uma estranha pinha de ferro aterrou no solo da sua casa. Felizmente não rebentara, estava desactivada.


A menina entrou no minúsculo quarto prosaicamente facultado pelos amos de sua mãe. As paredes, há muito pintadas de creme, lembravam mapas esborratados. Por mobília tinha apenas uma cama de ferro onde, o oxidado tempo, se manifestava em manchas acastanhadas. Em frente desenhava-se a janela, de vidros apressadamente pincelados de branco como que a escondê-las do mundo. Por baixo a envergonhada armação de madeira agasalhada por uma cortina de pano, salpicado de rosas vermelhas. Em cima dela o carismático e sempre entupido fogareiro a petróleo, acompanhado pela tosca bacia de barro servindo de lava-loiças. Dando o braço a estes seus companheiros de trabalho, encontrava-se o olho cego da pia de despejos, incumbida também de aceitar outras funções inerentes ao ser humano. A celha zincada do banho dormia encostada à armação de madeira. Do lado esquerdo da cama impunha-se o antigo móvel responsável pelos parcos utensílios domésticos. Era grande, de cor castanha quase preta. As portas apresentavam-se decoradas de entumecidas bolotas, suspensas eu finos caules, abafados em pequenas e delicadas folhagens. Apesar de velho ainda ostentava o orgulho de ter sido belo, o seu aspecto austero presidia toda a divisão. Finalmente, do lado direito, erguia-se a porta que dava para a escada dos escritórios e armazém dos grandes senhores.
A menina lançou um olhar acostumado ao exíguo apartamento. Sentou-se aos pés da cama e encostou-se à parede espalhando, em seu redor, as peças mancas.
Fazia pouco tempo que entrara nos seis anos. O seu pequeno e roliço corpo alertava o mundo inteiro de que era ainda uma criança.
Baixou a cabeça: os seus cabelos negros, ocultaram-lhe as faces morenas, coradas de revolta e de tristeza.
Inesperadamente sentiu a falta imensa dum pai. Não do que tinha, esse lembrava-lhe coisas más: Lembrava-lhe ter saído de outra casa, maior que aquela onde se encontrava, puxada pela mão de sua mãe. Lembrava- lhe a porta trancada que ele recusara abrir. Lembrava-lhe o enorme supetão que a mãe dera arrombando-a . Lembrava-lhe a grande zanga de seus pais e de estar outra senhora lá dentro. Lembrava-lhe não terem outra casa para onde ir e do desespero da sua mãe. Lembrava-lhe perguntar: “Mãezinha, vamos ficar na rua?”. Lembrava-lhe o desassossego dela sem ter resposta para dar. Lembrava-lhe ... lembrava-lhe ... , óh! o que lhe lembrava!.
Queria era um pai a sério, igual aos dos outros meninos com quem brincava na rua.
Existia um irmão mais novo, mas esse permaneceu com o progenitor. A mãe não podia abarcar os dois. Não tinha posses económicas para sustentar ambos e, um outro obstáculo impunha-se: os patrões não lhe facultavam a possibilidade de se instalar ali com ambos. Segundo eles, consentirem-lhe ter a menina com ela já demonstrava grande condescendência, acto caridoso digno de eterna gratidão.
Às vezes brincavam juntos, não morava longe, e gostava muito dele.
Certo dia, estando todos em reinadias traquinices, uma rapariguinha zangou-se com qualquer coisa e, sem mais nem porquê, empurrou o irmãozinho fazendo-o cair. Ela, numa atitude de fraternal protecção levantou o menino choroso. Felizmente não se magoara. A outra observava com ar de desdém. A menina dos grandes olhos castanhos encrespou-se, e de expressão torturada indagou-lhe: “ Ouve lá, se ele fosse teu irmão gostavas que lhe fizessem o mesmo?”.
A miúda, de esgar escarninho e sem pestanejar baixou-se, agarrou uma pedra e arremessou-a à cabeça da menina. Doeu e fez sangue. Alguém viu e foi chamar a mãe, que numa aflição imensa levou-a à farmácia. Graças a Deus o lenho fora superficial, dentro de pouco tempo estaria curada.
Aquela mulher do «antes quebrar que torcer», manifestou desejo de tirar satisfações sobre aquele acto . Disse à filha que ia ajustar contas com os pais da rapariga.
Ela, muito assustada pediu: “ Mãe, não vá, eles podem bater nela”.
A mulher, enquanto a afagava, agradeceu a Deus a bênção de ter gerado aquele ser tão lindo. Acedeu ao seu pedido perdoando ambas à perversa rapariguinha.
O tempo ia passando, a menina, cansada de esperar, ergueu-se da cama, entreabriu sorrateiramente a porta do quarto e espreitou, só com um olho, a escada fria. Ouviu passos. Seria a sua mãe?. Percebeu serem pesados e medonhos. Não, não era ela, a cadência do seu andar conhecia-o bem, sempre cansado e silencioso.
O coração apertou-se-lhe, sentiu medo. Um dos grandes senhores subia o soberbo edifício. Cautelosa, fechou a porta sem fazer barulho.
De olhar manso e triste observou novamente o seu tesouro desfeito. Amontoo-o num canto do leito e numa atitude de revolta, puxou a modesta colcha grená emaranhando-se nela. Cansada, adormeceu.
Sonhou com fadas a transformarem homens maus em monstros e serpentes. E eram tantos ... !
Estremunhada sentou-se. Um teimoso raio de sol insistia em penetrar pela fosca janela e acariciar aquele rosto triste de criança, apenas conseguiu oferecer-lhe um desmaiado e morno beijo. Mas foi o suficiente para que a menina acordasse e se pusesse a brincar com ele. Esticou os gordinhos dedos fazendo simulacros de imagens, somente perceptíveis por ela.
Farta da brincadeira voltou a deitar-se, não por sono mas por desinteresse. E sem saber porquê começaram a surgir-lhe lembranças das velhas tias da Costa do Castelo. Gostava tanto delas. Frequentemente pedia à mãe consentimento para as ir visitar.
Agradava-lhe vê-las fabricar, com cantigas pelo meio, as bolas de grosso tecido colorido, cheias com serradura. E como adorava as histórias que lhe contavam. Algumas faziam medo mas mesmo assim gostava. Teve pena de não poder ter ficado a morar lá quando a mãe se zangou com o pai. Mas as tias disseram que não podia ser. A sobrinha sim, mas com a cunhada nada feito. Não era por mal , tinham medo do irmão e das suas possíveis represálias.
Aí, a mãe voltou a mostrar ser mulher valente. Enquanto saía , e sem mostrar rancor informou-as: “Agradeço, mas nesse caso vamos as duas”.
Foi difícil, no entanto, uma alma caridosa deixou-as pernoitar, algum tempo, numa arrecadação de vão de escada, até surgir aquele emprego onde se encontravam.


A mãe entrou e os seus pensamentos fecharam-se.
Deu um salto da cama correndo para ela num pranto desolado. Golfadas de cristaizinhos soltavam-se-lhe dos grandes olhos. Abraçou-a convulsivamente lamuriando palavras desconexas.
A mulher sentou-a ao colo apertando-a muito a si. Olhou os cacos e entendeu tudo.
A menina apontando para eles balbuciou: “Olhe o que um homem mau fez ao meu Santo António”.
Aquele era o dia do Santo, e a menina montara um altarzinho, junto à porta do grande armazém, encimado com a mística personagem. Como a tradição o exigia ela, de caixinha na mão, pedia a quem passava: “Dá-me um tostãozinho para o Santo António?”. Mas um «ilustre» transeunte não gostou. Olhou-a ameaçadoramente grunhindo: “ Miúda, não me aborreças, não tenho paciência para pedintes. Isto é um ultraje ao prestígio da cidade e aos seus «dignos» cidadãos”. Enquanto bradava atirou um valente pontapé ao altar espatifando-o todo.
A mãe, de coração mais negro que a noite pensou alto: “Então os cacos que tive de limpar junto da porta eram os restos do teu Santo António”.
Por largo tempo mantiveram-se agarradas uma à outra, sem saberem qual sofria mais.
Enquanto a filha chorava ela mantinha os olhos secos de raiva.
Com a revolta espelhada no rosto tomou uma resolução. Nem que tivesse de passar fome, não permitiria que a sua menina terminasse o dia daquela forma. Controlou a emoção o mais que pôde, suspirou fundo, sacudiu os cabelos para trás e ergueu-se. Naquele momento ostentava o porte de uma rainha.
Levantou docemente o rosto da criança ainda chorosa e disse-lhe brandamente: “ Minha querida, não te rales muito com isso, afinal o Santo já estava velho. Se te recordas até tinha uma falha no manto, e o altar também já teve melhores dias. Vá, salta daí, vamos à drogaria, há lá muitos Santos António, e baratos. Quanto ao altar improvisamos outro com uma caixa do armazém , até o podemos forrar com um papel bem colorido que tenho na gaveta do armário, estava ali para uma necessidade e ela surgiu agora”.
A menina esboçou um sorriso do tamanho do mundo, e a mãe sentiu um calor dentro do peito do tamanho do sol.
Deram-se as mãos e lá foram buscar um novo Santo e construir um novo altar.
Ao terminarem a tarefa, a criança, pulando de contente, foi buscar a caixa dos tostões enquanto a mãe, de indicador esticado para a veneranda personagem lhe sentenciava: “ Vê se tratas bem a minha filha, não te esqueças de que também tens um menino nos teus braços”.

SEGUNDO PRÉMIO DE CONTO DA ORGANIZAÇÃO "CORAÇÃO AMARELO" 2008.

Liliana Josué

1 comentário:

Fada das Letras disse...

Olá minha amiga! Adorei o teu conto, muito bem construido e comovente, meus parabéns! Podemos publicá-lo no jornal Raizonline? Beijos com carinho, Arlete Piedade