CONTADOR

terça-feira, 8 de setembro de 2009

INSÓNIA



(Imagens tiradas do blog: vikikiprojects.blogpost.com)
INSÓNIA
Que regalo é, depois dum dia fastidioso ou pleno de emoções, olhar ternamente a minha cama; entreabrir os lençóis quentinhos, aconchegar as almofadas, vestir o fofo pijama de botinhas a condizer e soltar um bocejo ruidoso seguido de um relaxante espreguiçar. Cumprido o ritual resta-me mergulhar no balsâmico rectângulo.
Fecho os olhos mas, sem que lhe dê permissão, surge o rosário de lembranças do dia terminado, e sem mais nem porquê, meu corpo vibra num eléctrico esticão.
“ Que solução dar ao dilema que ficou por resolver”?. E pronto, lá se foi embora o tão necessário descanso.
Rebolo a cabeça na almofada e, numa atitude de consolo forçado balbucio: “Não te esqueças de que a noite é boa conselheira”.
Penso e repenso, mas a solução teima em jogar às escondidas comigo.
Irritada decido sentar-me na cama socando e atirando, as traiçoeiras almofadas, para trás das minhas costas.
De dentes cerrados repito: “Não te esqueças de que a noite é boa conselheira”.
Com este lema a martelar-me o cérebro, tento raciocinar mais friamente, acusando-me severamente daquela cobarde tentativa de fuga à situação .
Ergo-me, levanto o estore, abro a janela e observo o exterior comentando num sussurro desmaiado e polvilhado de pouca convicção: “ Repara no esplêndido luar que te entra quarto dentro, e naquele baloiçar discreto das flores do teu vizinho ..., não entendes a sua linguagem ... , estão a apoiar-te. Que mais queres?” .
Num esforço hercúleo volto a repetir: “ Não hajam dúvidas de que a noite é mesmo boa conselheira. Recuso-me a dormir enquanto não solucionar aquela famigerada questão” E assumindo uma postura enérgica, atiro-me em altas ponderações e conjecturas, permanecendo neste estado febril horas a fio.
Mas, inesperadamente, a minha atenção desvia-se para qualquer coisa que se mexe no passeio . Sombra estranha, esguia e ondulante; nem a lua lhe dava forma ou cor. Então conjecturei: “Tenho a cabeça de tal modo cansada que se ausenta do real”.
Debruço-me no peitoril e examino, mais atentamente, o estranho ser concluindo: “Não há duvida, encontra-se ali algo com vida”. Observando melhor apercebo-me ser um animal. Num ápice compreendi tudo e solto uma gargalhada de alívio. Fechei a janela, puxei o estore para baixo, estendi-me e agasalhei-me de novo na minha cama quentinha pedindo desculpa às maltratadas almofadas.
Já bem aninhada e meio adormecida ainda tive tempo de constatar: “ De tantas vezes repetir a mim própria ser a noite boa conselheira, esqueci de que também na noite todos os gatos são pardos”.
Mandei à fava o intrincado problema e desfrutei tranquilamente o meu soninho descansado.

Liliana Josué

Sem comentários: