CONTADOR

sábado, 7 de novembro de 2009

Florbela Espanca e a decadência portuguesa (Jornal Raiz Online)

Daniel Teixeira




POR DANIEL TEIXEIRA

O maior volume da crítica social e intelectual anti – capitalista – monopolista -colonialista existente um pouco por todo o mundo ocidental no período em que Florbela Espanca viveu não sabe exactamente aquilo que quer e dirige-se sobre vários campos; desejos de retorno à ordem feudal ainda que reformulada e / ou ao burguesismo comparativamente inocente do período e ideário da Revolução Francesa, reforço dos saudosismos de diversa índole e dirige-se também contra o avanço ideológico que as conquistas da ciência tinham vindo a incutir no processo evolutivo do capitalismo e contra a monopolização da vida económica e das nações que se subsumiam perante outras.

Antero de Quental, por exemplo, participa na aventura ideológica da colonização, agora sem o Brasil, que aliás estava revestida de todo um conjunto de directrizes ditas progressistas e plenas de boas intenções (os socialismos utópicos de St. Simon também aí participaram) e o problema de ir explorar de uma forma mais directa as colónias era de alguma forma incentivado e até fomentado pela classe progressista que embarcava serenamente na ideia repetida do evangelismo civilizacional.

O que se criticava, isso sim, era a inoperância com que tal processo se desenvolvia, entendendo-se que o reforço do colonialismo sob nova face se constituiria no élan necessário para aquisição de um maior grau de independência perante os colonialismos estrangeiros e num retorno progressivo à velha grandeza nacional.

E é a época das crises; são várias neste período conforme já referimos incluindo as crises de consciência, e o mundo, para algumas pessoas parece estar à beira da rotura e parece poder assistir-se eminentemente à redução do homem a um nada quase absoluto. Preso nas teias do homem como ser eminentemente social e no apagamento da individualidade absorvida pelo culto do global social feito Nação, os problemas sociais e políticos repercutem-se de formas quase assustadoras no campo da psique individual e levam ao reforço das ideologias e filosofias que pregam a superioridade da diferença contra a uniformidade, mas que no caso português são sempre extraordinárias.

O peso do problema da decadência e da vontade de retorno ao Portugal maior é ainda uma constante na intelectualidade portuguesa, e com uma especial incidência junto dos poetas, vá-se lá saber porquê se não se apontarem razões de escola como o refere indirectamente Jacinto Prado Coelho.

Fazendo um pequeno historial sobre este tema, este autor, leva as origens do sentimento da decadência para além (para trás) da consciência dela mesma agregando-a quer ao saudosismo de Sá de Miranda e Camões, quer ao próprio sebastianismo e estende-o por todo o percurso cultural português, detendo-se, na altura do fecho do seu trabalho, no neo-realismo e em Carlos Oliveira.

A acreditar nestas teses (e teremos que acreditar quanto mais não seja por respeito por tão ilustres personagens) o período de não decadência (ou de sentimento / consciência de não decadência) tendo durado cerca de 100 anos resultou (nesta perspectiva) numa eternização do complexo decadentista no corpo intelectual e pensante português que ainda hoje se vive. Na minha modesta opinião acho que é decadência a mais…para tão pouco tempo de fogo-fátuo.

Haverá assim que pensar que, para além do verdadeiro e profundo sentido da decadência de Portugal como grande Nação, existe já uma apologia do processo decadentista muito antes dele se manifestar como tal. Existe a construção ideológica de um fado nacional que leva à exploração do miserabilismo e à constatação, como o faz Antero do Quental em «Causas da Decadência dos Povos Peninsulares», de que o destino nacional se pode muito bem integrar numa perspectiva de busca do absoluto algures situado entre o impossível e o inexistente. Florbela Espanca comunga, na sua poesia intimista, desta forma de pensar, tal como o comungaram muitos outros que não foram capazes ou não puderam aceitar a ideia do Portugal pequeno ou subsidiário de outras nações mais fortes.

Regressando em re-directo e para confirmar a Jacinto do Prado Coelho, já em Camões se fala da «apagada e vil tristeza», por esse caminho seguindo J.P.C. até ao Sec. XIX (que é o que nos interessa agora) altura em que o romantismo regenerador expresso por Herculano desta forma constitui uma excepção: «(…) Portugal regenera-se porque se irrita da sua decadência. (…)». Ou seja, a famosa regeneração / redenção resulta da sua contrária lógica. Valha-nos isso, ao menos…que a decadência ininterrupta também cansa ( N.A.).

Mas o rol de decadentismo desesperante é retomado logo a seguir pelo texto de J.P.C. que nos atrevemos aqui a transcrever:

«(…) À medida que se aproxima o fim do século XIX, a ideia da decadência preside cada vez mais quer à ficção ( Eça, Teixeira de Queiroz, Abel Botelho, Fialho de Almeida, etc.) quer à poesia. O pessimismo alastra na Pátria de Junqueiro, onde perpassa o doido simbólico, rei destronado, herói feito mendigo e escárnio dos garotos, vagabundo que vela junto ao mar, fitando atónito as águas.




A India dos versos de António Nobre é um lugar subjectivo, o Impossível a que aspiram os poetas; nas Despedidas, Nobre traça o painel da decadência («Anda tudo tão triste em Portugal/ Que é dos sonhos de glória e de ambição?») mas traz-nos a boa nova do regresso do Encoberto («Virá El-Rei menino do Estrangeiro, / Numa certa manhã de nevoeiro?»).

Já no século XX, Álvaro de Campos (heterónimo de Pessoa) explica o vazio de alma de que sofrem os portugueses pelo destino imperial cumprido: «Pertenço a um género de portugueses/ que depois de estar a India descoberta/ Ficaram sem trabalho.»

Os poetas continuam a instilar nos seus versos uma visão deprimente da história nacional, que se lhes afigura submetida a um destino inexorável: «Somos navegadores pr’além da morte:/ Temos a India eterna da saudade/ Rumando para sempre a nossa sorte» (Versos de António Patrício em «Nau-Sombra»).

António de Sousa retrata Portugal como um grande senhor decaído: «Dias sem sol e noites sem luar. / Tantos mendigos a bater às portas! / Sombras e um vago aroma a flores mortas: / - Aqui foi Portugal, senhor dos mares!»

Carlos de Oliveira chora o longo sono da pátria no embalo de velhas histórias: «Lá vão naus da Índia, / Lá se vão tesoiros! / e os ventos secando / As laranjas de oiro! // Ama, até quando?»

As imagens obsidentes das aventuras e feitos passados polarizam a insatisfação em face do presente, a ânsia de outra coisa ou dum absoluto inatingível.» (In Jacinto do Prado Coelho, Decadência, Dicionário de Literatura).

Sobre este aspecto do absoluto inatingível ele funciona assim como que uma meta estendida muito para além das possibilidades de alcançamento humano, processando-se a dialéctica ideológica e poética no bater constante na tecla do «querer ser mas não poder» tão presente no conceito de amor e da vida de Florbela.

No caso português o problema do Ultimato Inglês cai como uma bomba numa sociedade que contava, conforme já vimos, com o desenvolvimento do colonialismo como elemento determinante para a independência nacional (da égide protectora e absorvente da Grã Bretanha) e consequentemente como elemento impulsionador da independência pessoal, ideia esta que se desenvolvia sem sobressaltos de maior desde os tempos do Marquês Sá da Bandeira.

Em 1875 é aprovado o Decreto de emancipação dos libertos nas províncias ultramarinas o que é considerado um marco decisivo na construção da nova ideologia colonialista nacional (de certa forma copiada do ideário francês sobre a matéria) e que a Sociedade de Geografia de Lisboa vinha a desenvolver numa perspectiva educacional global (desde a escola primária até à Universidade, desde as províncias ultramarinas até às regiões do continente) com a particularidade de procurar por esta via desviar os tradicionais fluxos migratórios para a América, redireccionando-as para as colónias.

Não fazer referência a um tal estado de espírito que, de forma mais ou menos directa terá levado ao suicídio de Antero de Quental pós ultimato, parece-nos injusto e até ofensivo para Florbela Espanca, que acaba por beber muito da sua temática depressiva não só neste ambiente psicológico e cultural nacional como bebe neste poeta e filósofo.

Ao mesmo tempo haverá a precisar que, para além das funções de direcção atribuídas nos planos aos colonizadores portugueses, se tem também no programa colonial em conta o reforço cultural dos indígenas com vista à formação de quadros médios e que o esforço educacional dos mesmos (cujo credo é deixado ao cuidado das ordens religiosas no que se refere aos escalões indígenas mais baixos) se vira para a moral cristã evangelizadora, para o respeito pela propriedade privada e pela apologia da monogamia.

As referências de Florbela Espanca ao «ser» decadente português enquanto colectividade nacional não são muito abundantes na sua forma explícita na sua poesia ; em certos passos das mesmas refere até que vive de certa forma alheada das revoluções que se passam pelo mundo, mas em rigor quase toda a sua poesia está eivada de decadência e dos cânones decadentistas interiorizados.

Os sonetos: «Caravelas», por exemplo fazem alguma fusão entre o ser de Florbela e o ser português visto nesta perspectiva, «Prince Charmant» faz uma referência ao sebastianismo e ao nevoeiro (de forma algo irónica mas sempre magoada), «Lembrança» contém um olhar saudoso sobre o ter sido e o desejar voltar a ser Portugal sob forma eufemística, «Mendiga» (uma terminologia recorrente na expressão do destinário nacional) fala da pequenez actual e dos desejos de retorno (neste caso aos livres matagais), «Nostalgia» fala-nos de um país de lenda (ou de lendas) e das riquezas tidas, o «Soneto IX» fala do que se teve e do não ter nada, «Sonho Vago» volta a falar do Desejado D. Sebastião, «O Teu Olhar» faz uma apologia da terra portuguesa no seu todo e interioriza-a, «Navios – Fantasmas» referem um regresso à meninice trazido pelos barcos / Naus agora fantasmas.

Pode dizer-se que nenhum poeta passou incólume sobre esta problemática, conforme já vimos acima.

Daniel Teixeira





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