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quarta-feira, 7 de abril de 2010

NATÁLIA CORREIA



DADOS BIOGRÁFICOS.

Natália Correia nasceu a 13 de Setembro de 1923, em Ponta Delgada, Açores,e faleceu a 16 de Março de 1993 em Lisboa.
Era filha de Maria José Oliveira e de Manuel Medeiros Correia.
Teve uma irmã mais velha chamada Carmen Oliveira Correia. Todos eles de Ponta Delgada.
O seu estrato social pode integrar-se na média burguesia

Características e personalidade de sua mãe: Foi uma mulher bastante culta incutindo nas suas filhas o gosto pela literatura. Era uma apaixonada pela Mitologia Grega, dando-a a conhecer, muito cedo, às duas crianças. As sua profissão era o ensino, acabando por ser professora das próprias filhas.
Natália Correia dizia: “Soube da existência dos deuses gregos antes de conhecer a Bíblia”.

AFRODITE RESSURRECTA

Da espiritual roseira vos cito a Citereia
que nos braços de Adónis cobre a terra de flores.
Cereal e Celeste. Não a Vénus sereia
que em tropos gregos passa por ter muitos amores.

A de leite colmada. De amor, a mama cheia.
Universal obreira de aromas e sabores,
que pelos argonautas, nos filtros de Medeia,
troca luas malignas por honestos lavores.

Da Grécia ao tredo Lácio degradada em Pandemos
em mirtos a resgato de cultos obscenos.
Do Espírito o plectro fere de novo a onda.

Venusta sai da concha e para todos brilha
em divas formas Deus. A carne é maravilha.
É-lhe devido o cisne. Mas sobretudo a pomba.

Características e personalidade de seu pai: Foi proprietário e negociante de ananases. Pela sua falta de capacidade para gerir o negócio faliu, acabando por fugir, cheio de dívidas para o Brasil. Sua mulher, Maria José, divorciou-se dele dedicando-se ao ensino e às filhas.
Natália Correia atribuiu ao pai, entre outros “predicados,” o de “estupor de calças” .

VINDA PARA A METRÓPOLE

Aos onze anos veio com a mãe e a irmã para Lisboa.
Maria José foi a fundadora da Escola Lusitânia Feminina na rua Morais Soares.
Natália Correia matriculou-se no Liceu D. Filipa de Lencastre, mas foi expulsa por não acatar as regras da instituição educativa; uma delas foi a recusa de utilizar o caderno diário.
Ainda frequentou a Escola Machado de Castro mas acabou por sair.
Não ingressou na faculdade. A disciplina institucionalizada nos estabelecimentos de ensino contundiam com a sua personalidade rebelde. Para ela aqueles ambientes tornavam-se insuportáveis, por isso mesmo assim dizia num dos seus poemas: “Sou aluna das ervas e frequento / o curso do amor…”
Tornou-se uma autodidacta, estudando com apego: António Sérgio, Almada Negreiros, Antero de Quental, Teixeira de Pascoaes, Camilo e muitos outros.

O ESPÍRITO

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.



UNIVERSO FEMININO DE NATÁLIA CORREIA

Viveu durante muito tempo rodeada de mulheres: mãe, irmã, tias, primas e avós. Por essa razão, e pelo estigma dum pai ausente, tornou-se uma defensora acérrima das mulheres e dos seus direitos, principalmente as de classe mais baixa, incluindo prostitutas, incutindo-lhes força para nunca se deixarem rebaixar pelos homens. Quando, pela noite, se dirigia a casa quase sempre se cruzava com elas e nessas alturas dizia-lhes: “ Mulheres, não se deixem pisar, não se esqueçam que são as pitonisas do amor”.

PRINCIPAIS ACTIVIDADES PROFISSIONAIS E POLÍTICAS

Em 1944 ela e sua irmã Cármen foram jornalistas no Rádio Clube Português, e eram conhecidas pelas irmãs Balalaikas. Foi nesse programa que a poetisa se começou a demarcar pelo seu génio e dom de palavra, mais tarde transformado em dom de oratória.
Em 1946 publicou o seu primeiro poema “Manhã Cinzenta (à partida de S. Miguel)” do qual vou ler apenas a primeira estrofe.

Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra de meus pais…
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais(…)

Nesse mesmo ano publicou também o romance “Anoiteceu no Bairro”
Mais tarde dedicou-se à vida política, tornou-se membro do MUD (Movimento de Unidade Democrática) onde conheceu Mário Soares.
Em 1969 em parceria com ele integra-se no CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática).
Voltando uns anos atrás, em 1949, apoiou a candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República.
Em 1958 irá apoiar o General Humberto Delgado ao mesmo cargo, apelidando-o “Cavaleiro da Liberdade”.
Mais tarde dará o seu apoio ao General Ramalho Eanes e Maria de Lurdes Pintassilgo.

Desempenhou o seu primeiro cargo político em 1979 como Consultora para Assuntos Culturais da Secretaria de Estado e da Cultura.
Em seguida foi eleita deputada pelo PSD. Durante este período escreveu o célebre poema “A Defesa do Poeta” de onde sobressaiu o tão famoso verso “(…)Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer!
“Espartilhos” não coabitavam com a sua personalidade,e as regras impostas pelo Parlamento também não foram do seu agrado. Por isso ela explica porque aceitou o cargo através destas palavras: “Fui deputada porque me pediram para introduzir o discurso cultural no Parlamento.”
No entanto em 1987 voltou a candidatar-se a deputada, através das listas do PRD (Partido da Revolução Democrática).
A sua terra nunca ficou esquecida, aderindo à Frente de Libertação Açoriana e aceitando escrever a a letra para o Hino dos Açores.

Mas para a poetisa, a única forma de fazer verdadeira política era através da poesia. Citação: “A poesia é , acima de tudo, o principal agente da revolução; não daquela historicamente dada, mas da revolução permanente que o sujeito impõe a si mesmo ao “acusar a história de nos ter escondido que todas as revoluções foram até hoje desnaturados exercícios da verdadeira””(revolução).
Há a acrescentar que nem sempre a sua obra literária foi bem aceite pelo governo vigente daquela altura. Foram-lhe censurados muitos trabalhos como: “Antologia da Poesia Erótica e Satírica” de 1966, pela qual foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa, O Homúnculo de 1965 e a peça “o Encoberto” de 1969.

Sempre se considerou uma escritora independente ; sem quaisquer influências de outros escritores ou tendências para estilos catalogados. No entanto, segundo alguns estudiosos, na obra de Natália Correia, podem notar-se influências de Teixeira de Pascoaes e do seu conterrâneo Antero de Quental.
Sob o ponto de vista estilístico consideram-na uma Romântica, Barroca ou mesmo Saudosista, podendo-se constatar também uma bem marcada influência Surrealista através da sua escrita sarcástica, irónica, com associações fónicas e imagéticas.


VIDA AMOROSA – LIGEIRA ALUSÃO

Apenas aqui deixo registado que casou várias vezes, não se adaptando, como é compreensível, ao papel de dona de casa. Cito palavras de própria poetisa: “Tudo o que seja fogões e panelas horroriza-me(...) ”.



O SEU CONCEITO DE PÁTRIA

Influenciada pelas teorias do monge medieval Joaquim Fiore, a noção de Pátria, irá sofrer uma transformação evolutiva, e em lugar de Pátria passará a existir uma Mátria. Natália Correia preconizava que o masculino e o feminino tinham tendência a aproximar-se cada vez mais, até se tornarem num único ser, mas teria de haver um período intermédio, onde as mulheres desempenhariam o papel preponderante. Segundo palavras da poetisa: “ As mulheres quando são grandes são superiores aos homens, porque são mulheres e homens ao mesmo tempo...” “(...) O mundo só se salva se elas tomarem conta dele(...)”.
Não se dando por satisfeita ainda arquitectou um terceiro conceito de Pátria realmente perfeita; a Fátria, inspirada na ideologia da Fraternidade e Igualdade.
Teve um programa na RTP intitulado “Mátria” onde apresentava mulheres de grande vulto do nosso país, em vários campos culturais.

IDEAIS RELIGIOSOS

Em relação à crucificação repudiou-a dizendo: ”Que as forças inebriantes da vida o despreguem da cruz, para que Cristo não seja sofrimento mas alegria”.
Natália Correia pretendeu recuperar o sagrado mas sob o ponto de vista pagão.
O seu enlevo pelo paganismo deveu-se, sobretudo, à educação dada por sua mãe.
Considerava-se também uma espiritualista, devido a estranhas experiências por que passou. Achava-se dominada por espíritos ou energias; acreditava ser portadora de poderes sobrenaturais.
Fernando Dacosta afirmou tê-la visto fazer parar a chuva num comício de Jorge Sampaio, na sua candidatura à Câmara de Lisboa. Ele próprio relatou: “(...) com gestos imprevisíveis dirigia-se para lá do visível(...) ou “(...) vi-a fazer parar a chuva, retroceder agressores, imobilizar loucos(...).
Para confirmar tudo o que foi dito sobre este assunto apresento dois versos dum poema dela: “ Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes / Creio no incrível, nas coisas assombrosas(...).

O BOTEQUIM

Em 1971 abriu na Graça, com Helena Roseta e outras mulheres da cultura portuguesa, um bar chamado O Botequim. Aí foi o ponto de encontro para muitos políticos e intelectuais. Comiam, bebiam, confraternizavam, diziam poesia e até cantavam.
É, quanto a mim, um local a considerar, como tantos outros que já temos, de grande importância na nossa vasta tradição intelectual.
Para terminar a minha intervenção, acrescento apenas que Natália Correia, devido à sua forte e pouco comum personalidade, foi muitas vezes catalogada de marginal, coquete e excêntrica.
Em relação à sua obra disse ela: “Vai ser preciso passar uma década sobre a minha morte, para começarem a compreender o que escrevi”.

LÍNGUA MATER DOLOROSA

Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda e bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joelhada

tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,

eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus versos feridos vão de maca.

Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste língua;
língua serás ainda... mas de vaca.

Trabalho feito por Liliana Josué

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