CONTADOR

segunda-feira, 21 de junho de 2010

AO MEU ESCRITOR


Agora que morreste
este país de gente pequenina
venera-te como um mestre
mas recusou-te em vida
porque eras um herege da gramática
e da doutrina.
Revolta-me a falta de brio
deste país.
Sinto o frio da mágoa
por ouvir tanta palavra enfática
que agora toda a gente diz.
De proscrito a herói
porque morreste
mas isso dói
a quem sempre te admirou
e defendeu
de julgamentos tão ridículos
e mesquinhos.
Foste sempre o Meu Escritor
muito antes dos títulos
que o estrangeiro te deu.
Estrangeiro sim!
Porque os de cá
morderam-te a escrita
como coisa maldita.

Foste sempre o Meu Escritor!

(Dedicado a José Saramago)

20 de Junho de 2010
Liliana Josué

6 comentários:

Joaquim Sustelo disse...

Uma bonita homenagem a José Saramago, com a qual concordo inteiramente.
Beijinho
Sustelo

Liliana Josué disse...

Olá Sustelo

Mais uma vez obrigada pela sua solidariedade e pelo agradável comentário ao meu poema.
Beijinho

Lobodomar disse...

Liliana, bom dia.

Eu sou brasileiro. E sempre - sempre! - fui fã de Saramago. Também vi muita injustiça na avaliação de sua obra, o que não me causou espanto. A morte de Saramago é, a meu ver, a grande perda do mundo nessa primeira década de século XXI. Porém, o trabalho, a mensagem, a poesia, o lirismo de sua obra, bem como as críticas que fez surgir,... isso tudo continuará eternantemente, abrindo cabeças, incomodando os injustos. Então ele vive.

Parabéns pelo seu blog e sua poesia de primeira grandeza.

Grande abraço, poetisa!

Ivan Bueno disse...

Liliana,
Nesta sua outra homenagem ao nosso querido Saramago, você me fez pensar nesta hipocrisia das pessoas.
Como te disse no outro comentário, fiz lá no meu Empirismo Vernacular uma homenagem a ele, mas na verdade foram duas.
Uma no dia do falecimentos, a outra um dia depois, quando li no jornal A Folha de São Paulo sobre a manifestação desrespeitosa e caluniosa que o Vaticano publicou no seu L'Osservatorio Romano, difamando tanto o autor quanto sua obra. E isto antes até de o corpo ser cremado.
Quanto respeito por parte do "digníssimo" Vaticano, não? Escrever meu repúdio foi inevitável.
E em relação a este poema ao seu/nosso escritor, as pessoas têm a tendência de só valorizar certas coisas e pessoas depois que morrem.
Não sei se vocês conhecem aí em Portugal um cantor e compositor brasileiro chamado Zeca Baleiro (aliás fui a um espetáculo dele ontem à noite). Tem uma música dele em que ele diz, ironicamente, que "poeta bom é poeta morto". Triste verdade.
Felizmente descobri Saramago há muitos anos e vi diversas entrevistas com ele. Uma, inclusive, anteontem, na TV Cultura aqui do Brasil. Não foi apenas uma entrevista, mas vários fragmentos de entrevistas e partes de documentários. Muito bonito.
Que bom compartilhar gostos. Por aqui a perda dele foi muito sentida.
Te aguardo lá no Empirismo, com prazer.
Beijo grande,

Ivan Bueno
blog: Empirismo Vernacular
www.eng-ivanbueno.blogspot.com

Liliana Josué disse...

Olá Lobodomar
Antes de mais os meus agradecimentos por ter visitado e comentado o meu blog.
Agradeço ainda a solidariedade demonstrada em relação à injusta maneira como foi tratado este escritor tão grande. Ele viverá sempre sim. A esposa dele (Pilar del Rio) teve muita razão quando disse, para quem a quis ouvir na televisão, que Cavaco Silva (Presidente da República de Portugal)e acérrimo acusador de Saramago, que ele em meia dúzia de anos será esquecido enquanto que o Escritor daqui a 500 anos ainda será lembrado.
Acho interessante vocês brasileiros gostarem assim deste escritor português.É lindo.
Obrigada pelo agradável comentário que fez à minha poesia.
Um grande abraço.

Liliana Josué disse...

Olá Ivan Bueno
Mais uma vez agradeço a sua solidariedade e interesse pelo meu blog.
Tudo o que disse está certíssimo. A Igreja, ainda o livro "Caim" não tinha saído, já estavam em cima dele raivosamente. Com o facciosismo deles nem se aperceberam que eles próprios estavam a fazer publicidade ao livro originando milhares de vendas.
Pode crer que vou visitar a sua página com todo o gosto.
Um beijo de gratidão.