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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

DAVID MOURAO FERREIRA

DAVID MOURÃO FERREIRA




David Mourão Ferreira tornou-se bastante conhecido através da sua obra literária, pelos mais letrados, e na televisão pelos menos informados com o programa IMAGENS DA POESIA EUROPEIA, do qual tentei retirar alguma informação na net mas infelizmente não consegui. Como se sabe eram programas em directo, logo os registos foram poucos. Para além deste consegui apurar, sem confirmação, pois como já disse este tipo de informação é curto (talvez noutros locais haja como Cinemateca ou Biblioteca Nacional) mas aí já não tive oportunidade de ir, que teve outro programa televisivo chamado HOSPITAL DAS LETRAS e um radiofónico com o nome MÚSICA E POESIA, ambos em 1974.

TERNURA


Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão:que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

Eu era ainda uma adolescente quando esses programas foram transmitidos, e para falar com toda a franqueza, nessa altura, não fui grande admiradora do poeta, talvez devido á minha tenra idade, mas em compensação adorava ouvir e ver a bela Rosa Lobato Faria nos programas do poeta dizendo poemas dele e de outros. Claro que hoje a minha opinião sobre o escritor é bem diferente. Por todas estas razões não quis deixar de colocar aqui um poema bastante conhecido do escritor

CERTIDÃO DE NASCIMENTO

Tão regaço estas arcadas
Tão de brinquedo os eléctricos
Vejo a cidade parada
no ano de vinte e sete
Dela por vezes me evado
mas sempre a ela regresso
Bem sei eu que não desato
o cordão com que me aperta
Vejo seus gestos de grávida
medidos cautos imersos
nessa jovem gravidade
que só grávidas conhecem
Que frescor de madrugada
no terror com que me espera
Mães têm sempre a idade
que em sonho os filhos decretaram
Recordo melhor a data
Até mesmo a atmosfera
É o dia vinte e quatro
de um mês a tremer de febre
com armas grades e o rasto
de um sangue que nunca seca
Só seis decénios passaram
rápidos como seis séculos
Tão pouco Mas neles cabem
cidade arcadas eléctricos
nesta imensa claridade
irmã gémea do mistério

Deixo aqui também o primeiro poema integrado na sua primeira obra VIAGEM SECRETA

INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS


Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.

Dando seguimento ao meu trabalho vou apresentar-vos uma curta biografia do autor: Nasceu a 24 de Fevereiro de 1927, em Lisboa e faleceu a 16 de Junho de 1996 nas mesma cidade. Licenciou-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa e teve como colegas de curso: Sebastião da Gama e Lindley Cintra. Como professores: Hernâni cidade; Vitorino Nemésio e Jacinto Prado Coelho. Inicialmente , segundo palavras de familiares, ele não não foi um brilhante aluno durante o ensino secundário e Manuel Couto Viana chegou a dizer com muita graça que “David Mourão Ferreira era cábula como qualquer pessoa inteligente”. Frequentou o Colégio Moderno onde foi colega de Mário Soares. No entanto licenciou-se com belas médias, foi professor do ensino secundário e mais tarde Professor Catedrático na mesma Faculdade.
Para além do ensino teve outras actividades como: Secretário de Estado da Cultura entre 1976 e 1979 , director do jornal A Capital e responsável pelas Bibliotecas itinerantes de Fundação Caloust Gulbenkien.
Os seus primeiro poemas datam de muito jovem, por volta de meados dos anos 40, mas considera-se o início da sua carreira poética entre 1948/50 com a obra A SECRETA VIAGEM .

ALVORADA (Secreta Viagem)

E de súbito um corpo! Alvorada sombria,
alvorada nefasta envolta nuns cabelos...
Eram negros e vivos. Quem sofria,
dentro de mim, e assim tremia
só de vê-los?

Eram negros; e vivos como chamas.
Brilhavam azulados, sob a chuva.
Brilhavam, azulados, como escamas
de sereia sombria, sob a chuva...

Veio cedo de mais a trovoada:
o vento me lembrou
de quem eu sou.
- Alvorada suspensa!, contemplada
por alguém que chegou a uma sacada
e à beira de varanda vacilou.

David Mourão Ferreira trabalhou ao lado de Manuel Couto Viana. Ambos dirigiram a revista Távola Redonda entre 1950 e 1954. Segundo os seus colaboradores ela não pretendia ter credo político, ou seja: para eles a poesia não devia estar virada para questões sociais, como faziam os Neo-Realistas, e viam mesmo nesse tipo de poesia algo de pouco dignificante para a mesma, pois, segundo eles, apresentava uma estrutura muito básica e palavra limitada, achavam mesmo esse estilo não poético. A criação poética teria forçosamente de estar liberta de tudo isso e voltaram-se para o lirismo puro embora de características adequadas à nossa época. Segundo o seu conceito de poesia o poeta tinha de ser autêntico, genuíno, sem a grilheta social.
Quanto à estrutura dos poemas esta deveria ser elaborada, sem repentismos baratos nem relatos toscos. Poderia ter métrica ou não e a rima também poderia ser livre o tradicional, mas sempre dentro duma arquitectura correcta. Era a técnica ao serviço da criação.

MEMORIA

Tudo que sou, no imaginado
silêncio hostil que me rodeia,
é o epitáfio de um pecado
que foi gravado sobre a areia.

O mar levou toda a lembrança.
Agora sei que me detesto:
da minha vida de criança
guardo o prelúdio dum incesto.

O resto foi o que eu não quis:
perseguição, procura, enlace,
desse retrato feito de giz
para que não mais eu me encontrasse.

Tu foste a noiva que não veio,
irmã somente prometida!
O resto foi a quebra desse enleio,
O resto foi amor, na minha vida.

David Mourão Ferreira dedicou-se muito ao estudo e divulgação dos nossos poetas mais antigos revalorizando-os e também os mais recentes como Miguel Troga, podendo isso ter sido verificado nos tais programas televisivos de que já falei. Alguns dos seus escritores de eleição foram:Paul Valéry; Marcel Proust; André Gide; Fernando Pessoa; Vitorino Nemésio e outros, quase todos nomes relacionados com o modernismo e pós-modernismo francês e português. Na infância conheceu bem José Rodrigues Miguéis, o qual era amigo de seus pais, e mais tarde relacionou-se com Natália Correia .

Apesar de não deixar transparecer na sua poesia, o autor teve alguma actividade política, embora não tivesse sido um empenhado de alma e coração. Participou no MUD Juvenil (MUVIMENTO DE UNIDADE DEMOCRATICA) que surgiu em 1945 em oposição ao regime salazarista.
No ano de 1974, uns meses antes do 25 de Abril, depôs a favor de Maria Teresa Horta no processo que lhe foi movido ao publicar as Novas Cartas Portuguesas.

Esquadrinhando um pouco mais a poesia deste autor pode constatar-se que ele dá muita importância à MEMÓRIA. Não a memória na accepção directa da palavra mas algo de mais subtil, para mim o que ele entende como memória, será talvez um pouco aquilo que fica em relação ao concreto e ao abstracto, ou seja: a sensação como memória.

SERENATA DO ADOLESCENTE



Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade.
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint'anos? Ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome da luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda – ante o teu seio -
queimar tão pobre mocidade!

Segundo palavras de Eduardo Prado Coelho: “A memória, para David Mourão Ferreira, sustenta-se de dois excessos, o da fixidez e o da diluição. É isso que permite ao poeta instituir uma espécie de cadência do destino no interior da decadência da memória, um ritmo que vai que vai modular toda a sua enunciação poética”.

PEDRA

A pedra que morreu ontem à tarde
ressuscitou no sonho desta noite:
é uma pedra pequena, mas volátil,
transparente depois, durante o sono.

Ternura é sobretudo o que lhe falta
se contemplada for à luz de um ombro.
Mas tem a meio um veio que a retrata:
encontro, desencontro, reencontro.

E creio que morreu. Foi enterrada
no lodo onde a raiz do pesadelo
bebe, de noite, amor e calafrio...

Bem pudera ter sido inteira lápide!
Assim, não mais que a ponta de uma estrela
- mas na pedra, talvez, do meu jazigo.

Em David Mourão Ferreira existe outra constante, o NADA. Este nada encontra-se na mesma linha de raciocínio da MEMÓRIA, apresenta-nos um nada concreto e um nada filosófico ou, na minha opinião, com certa carga “existêncialista”. Podemos observar isto em grande parte da sua obra. Volto às palavras de Eduardo Prado Coelho que nos diz o que entende deste nada: (...) algo persiste na arquitectura do NADA como uma espécie de matéria obscura que se obstina para além da vida ou da morte. Se aí se pressente o próprio desaparecimento, contudo aí também se desenha uma espécie de razão indestrutível(...).
Há a notar que o poeta também trabalhou temas religiosos, tendo mesmo uma obra intitulada CANCIONEIRO DE NATAL, onde utiliza profusamente o NADA aqui referido. Uma outra palavra muito utilizada pelo autor é a palavra VULTO bastante carregada de simbologia.

LADAINHA DOS POSTOMOS NATAIS







Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

A poesia de David Mourão Ferreira também deu a palavra aos aspectos mais tradicionais da cultura portuguesa pois escreveu letras para fados compilados grande parte deles na sua obra À GUITARRA E À VIOLA. Alguns desses fados foram interpretados por Amália Rodrigues como: Libertação ou Madrugada de Alfama.
Só a título de curiosidade já tive em meu poder um disco gravado na casa de Amália onde estavam presentes: David Mourão Ferreira; Vinicius de Morais; Ary dos Santos; Natália Correia e o próprio , no fundo uma tertúlia organizada por eles. É uma preciosidade que deveria ser bem preservada e que infelizmente já não tenho em meu poder pois foi-me facultado por uma pessoa amiga.
Vou colocar apenas um excerto da letra feita pelo poeta para o fado MADRUGADA DE ALFAMA interpretado por Amália Rodrigues.





Mora num beco de Alfama
e chamam-lhe Madrugada.
Mas ela de tão'stouvada,
nem sabe como se chama.
Mora num'água-furtada
que é a mais alta de Alfama,
a que o sol primeiro inflama
quando acorda a madrugada.
(...)

Como todos sabemos este escritor teve grande vocação para a poesia erótica, principalmente para o fim da sua vida. Os títulos dessas obras são: O CORPO ILUMINADO e MUSICA DE CAMA.
Como bom escritor que foi, o seu erotismo, apesar de muitas vezes ser bem explícito, nem por isso deixou de ser belo e delicado. Ele dá-nos uma poesia cheia de musicalidade e brilho, e os personagens apresentam traço firme mas ao mesmo tempo lembram as do conto das mil e uma moites. Tudo isto não deixou vulgarizar este seu tão característico modo de poetar. Mas, mesmo assim, ainda houve e há quem tente reduzi-lo apenas a esse tipo de escrita erótica e de forma pouco edificante.
Aqui vos deixo com dois belos poemas eróticos de Davis Mourão Ferreira.

CASA






Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.



XIV (CORPO ILUMINADO)


É quando estás de joelhos
que és toda bicho da Terra
toda fulgente de pêlos
toda brotada das trevas
toda pesada nos beiços
de um barro que nunca seca
nem no cântico dos seios
nem no soluço das pernas
toda raízes nos dedos
nas unhas toda silvestre
nos olhos toda nascente
no ventre toda floresta
em tudo toda segredo
se de joelhos me entregas
sempre que estás de joelhos
todos os frutos da terra

Trabalho elaborado por  Liliana Josué

1 comentário:

Marcelino disse...

Eu não conhecia o poeta David Mourão. Gostei muito dos textos que dele postaste, Liliana. Obrigado por nos apresentar ( a mim e a muitos internautas) esse ótimo escritor.