CONTADOR

domingo, 4 de setembro de 2011

LUIZA NETO JORGE

(Texto anteriormente publicado no jornal Raiz Online)




Falar sobre grande parte das escritoras das décadas de 60/70 é algo complexo, na medida em que se afirmaram num tipo de escrita muito direccionada para a emancipação feminina, por sua vez bastante voltada para o campo sexual. Não que este factor em si traga grandes dificuldades, mas sim pela complexidade de linguagem.

As décadas de 60/70 foram propícias à afirmação feminina, pois a mulher encontrava-se faminta de liberdade, visto ter sido sistematicamente calada pelas sociedades e civilizações opressoras em que viveram.

Em pleno século XIX o homem ainda podia exercer violência sobre a esposa, a qual lhe devia obediência em absoluto.

Uma mulher trabalhar fora de casa era mal visto, só em extrema necessidade o fazia. Se fosse solteira ainda tinha algumas atenuantes, mas depois de casada a questão tornava-se problemática, e caso trabalhasse a sua obrigação era subservientemente entregar o ordenado ao seu marido.

Já no século XX surge a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas; mais precisamente no ano 1909 com a médica Adelaide Cadete a a escritora Ana de Castro Osório, exigindo a revisão do código civil. Mais tarde, com Estado Novo aparece a grande jornalista feminista Maria Lamas, afirmando-se na tentativa de dar um maior esclarecimento e educação às mulheres de todo o país, mas Salazar não apoiou tal iniciativa, continuando a mulher na dependência masculina. Por muito que hoje nos impressione, ela não tinha permissão de possuir passaporte próprio, nem viajar para o estrangeiro sem autorização do marido, mesmo que se encontrassem separados.




Por volta de 1966 notaram-se algumas melhorias, a mulher casada já conseguia exercer uma profissão liberal sem necessitar da autorização do marido, e dispor do seu salário, mas, se ele quisesse podia acabar com trabalho da esposa, através de um pedido de cancelamento do contracto, sem que ela tivesse possibilidade de se opor.

Em 1968 a mulher consegue finalmente o direito a voto, menos em eleições municipais. A razão dessa limitação desconheço. Talvez possa ser tema para um futuro trabalho.

Só a partir de 25 de Abril de 1974 é que a mulher atingiu a sua emancipação total com plena igualdade de direitos. No entanto sabemos que ainda hoje essa igualdade não foi atingida plenamente.

A minha introdução serviu para aqui lançar o nome duma escritora que muito se debateu pela emancipação da mulher: Luiza Neto Jorge.

Esta escritora nasceu em Lisboa a 10 de Maio de 1939 e faleceu na mesma cidade a 23 de Fevereiro de 1989. Cursou Filologia Românica na Faculdade de Letras de Lisboa. Entre 1962 e 1970 viveu em Paris, cidade eleita por muitos artistas de várias épocas visto ser sinónimo de novos horizontes.

Pode considerar-se uma escritora de estilo vanguardista, onde a simbologia é muito utilizada, mas não como anteriormente pelos simbolistas puros (Camilo Pessanha), onde se encontra o metafórico no seu expoente máximo de duplo sentido idealizado. Na poetisa o simbolo aponta para algo concreto, e nisso ela foi uma exímia percursora. Escreveu vários livros de poesia, escreveu para o cinema, teatro e fez várias traduções.

Tinha uma forma muito peculiar de “informar” qual era a sua morada. Segundo ela, a sua casa era o local onde se sentia integrada como por exemplo: A Rua que se chamou Mundo, a cidade de Silves, Faculdade de Letras, Maio de 68 e outros.

MINIBIOGRAFIA

Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um Deus para tudo de alto
Mas záz! Do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.
(...)

A CASA DO MUNDO

Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
(...)

Pertenceu ao grupo que concebeu o projecto Poesia 61 que consistia numa Antologia com poemas de vários autores inseridos na mesma linha de escrita e pensamento como: Fiama Hasse Pais Brandão e Maria Teresa Horta. Estes escritores tinham a necessidade do verso trabalhado, sem características discursivas. Os seus trabalhos apresentavam uma noção de estética notória.

A poetisa ainda sofreu influências surrealistas mas, ao mesmo tempo, com muito lirismo pelo meio, nada tendo a haver, no entanto, com a escrita romântica. Nesta o sentimento é a base prioritária do poema, em Luiza Neto Jorge esse aspecto é rejeitado; o íntimo da escritora tende a ser interiorizado expondo-se apenas numa escrita subjectiva e imagética. Também não é uma escritora discursiva, mas é narrativa no seu modo muito próprio; muito pessoalizado, como se pode constatar num dos seus poemas da obra “A Noite Vertebrada”.


5 POEMAS PARA A NOITE INVARIÉVEL

III
Noite única noite singular impressa
consagração das chuvas e das flores violadas
dos pássaros algemados em voo
dos silêncios por amor à voz
das alquimias pobres alquimias de oiro
das turbinas de aço onde as espadas escorrem

crescem árvores mais definitivas
pálpebras trémulas da noite

é o muro que eu recrio a cal sem vazios diários
todos de verdade nós todos férteis salvos

todos veias claras nós sementes
nós o susto fecundo de vivermos
nós os números e as letras e os desenhos

ah matem-me de noite punhais híbridos
sentinela das fronteiras extintas
sentinela última da noite

No que respeita à influência da escrita automática surrealista, esta pode ser constatada, por exemplo, quando descreve partes do corpo, amimais ou pinturas, portanto nas coisas aparentemente concretas.




A LÍNGUA

A língua
que é líquido
sacro
não transborda

um dedo
que tocou
a palavra
não a aborda

Deixo aqui uma nota de destaque: o Surrealismo e o Neo-Realismo foram contemporâneos, mas mas o Neo-Realismo foi ultrapassado pelo Surrealismo, pois a linguagem directa entrou em desuso enquanto que a menos explícita continuou a vingar, e Luiza Neto Jorge foi um perfeito exemplo disso.

Os críticos literários e escritores consideram o trabalho desta poetisa uma arte silenciosa, e a principal razão é o facto de ser muito erotizada, pois a comunicação sexual entre homem e mulher é expressa principalmente no silêncio. O leitor atento pode constatar tal evidência ao deixar-se enredar na sua leitura. Assim, tentar explicar este silêncio torna-se um trabalho árduo. Podemos opinar, sentir a nosso modo, mas tudo o que ultrapasse esta tomada de posição pode tornar-se um mero trabalho especulativo.

Neste género de escrita não encontramos poemas sociais ou intervencionistas, catalogados assim numa primária interpretação destes estilos. A revolta dá-se sim mas na inovação literária; o explícito é rejeitado em absoluto assim como o aspecto ético.

POEMA INTEGRADO NA OBRA “O CICLÓPICO ACTO”

Chorar ou rir? Um medo tal!
Descobrir um rastro, outra versão de, às cegas
outro corpo onde se expanda. Deseja-o
por exemplo e ele não pode – parece-lhe -
parar so-
cialmente. Postado na rocha
hipnotizando o mar acrílico.

É uma solidão (orgíaca) a de ambos
(querê-la!) impele-a, hasteia-o
(querê-lo! requerê-la!)
Tu mesmo aéreo, em tuas altas partes.
De perto vigiando o ar: o avião de Troia.
Absorvente e absorto; inspirador e expirante

... uma solidão (bis)

Não podemos esquecer que Luiza Neto Jorge também lutou por um ideal e apregoo-o na sua poesia: é ele a emancipação da mulher através do sexo. A sua tomada de posição baseia-se no facto desta ter de deixar de ser apenas um ser desejado e passar para o campo do ser desejoso, sem tabús, em pé de igualdade com o homem, afinal ambos são seres humanos, assim sendo a mulher tem a obrigação de superar todo um passado de sujeição, principalmente a nível sexual e demonstrar sem rodeios os seus instintos.

METAMORFOSE




Quando a mulher
se transformou cabra
marés anuíram
ao ciclo recente
das águas
ah
as bombas
desceram em paraquedas
antes dos homens

Esta é a revolta
a metamorfose
onde
equinócios mecânicos
abortam filhos
(...)
Foi quando a mulher
se fez cabra
no compasso de fúria
contra a batuta
dos chefes de orquestra
que escorrem notas
dos gritos da música

Fez-se cabra
desatenta de origens
cabra com fardo de cio
no peso das tetas
cabra bem cabra
adoçando a fome
na flor dos cardos

(Quando a cabra
voltar mulher -
ressurreição)

Há ainda um ponto muito curioso em relação a esta escritora. Ela desenvolveu a sua teoria sobre a emancipação feminina através de símbolos caracteristicamente masculinos (aqui podemos observar a mulher como ser desejoso).

O POEMA (DA OBRA “TERRA IMÓVEL)

I

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta

e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme



Muito mais haveria para dizer sobre Luiza Neto Jorge de quem se tem falado tão pouco. Penso que é um grande valor da nossa literatura que tem sido sistematicamente esquecido como tantos outros, por isso me propus dá-la a conhecer a quem ainda não a leu e relembrá-la aos esquecidos.

O ano secou.
Subi leve à nascente
que falece.

Descesse, e era
o mar.




Trabalho elaborado por Liliana Josué

Sem comentários: