CONTADOR

sábado, 29 de outubro de 2011

CASIMIRO CAVACO CORREIA DE BRITO

BREVE ESTUDO SOBRE O ESCRITOR CONTEMPORÂNEO CASIMIRO DE BRITO


Casimiro de Brito é um personagem da nossa literatura quase “inventado” por quem o lê, pois as suas facetas são tantas que nos absorve a imaginação. À medida que penetramos na sua escrita o espanto instala-se em nós (no sentido filosófico da palavra) Muito há para dizer sobre este escritor, visto ele ser um mundo a explorar e um paladino da palavra. Vou tentar sintetizar a sua obra tocando vários aspectos de modo a que fiquemos a conhecê-lo um pouco melhor e revelá-lo a quem não o conhece.

Nasceu em Loulé a 14 de Fevereiro de 1938. É um dos escritores pertencentes ao Movimento Poesia 61 e integrou os cadernos de poesia compilados na Antologia com o mesmo nome. Tirou o curso na Escola Comercial de Faro, e durante 37 anos exerceu a profissão de bancário.
O seu fervor pela escrita não consentiu que “desperdiçasse” tempo em cursos superiores. Escreveu mais de 40 livros, até agora, de vários géneros literários.
Em 1957, mais propriamente aos 18 anos, publicou o seu primeiro livro de poesia intitulado Poemas da Solidão Imperfeita, considerado pelo grande crítico João Gaspar Simões e pelo consagrado vulto da nossa literatura, António Ramos Rosa, um trabalho de excelente qualidade. Este último tornou-se seu amigo, permanecendo essa amizade até aos dias actuais.
Sua adolescência trouxe-lhe o fascínio pela natureza (como o mar e a luz).Contraiu amizades com quem tinha debates intelectuais sobre assuntos Teológicos e sobre a eterna questão da desigualdade entre os homens.
Segundo consta, iniciou-se na escrita quando começou a participar em jogos florais.
Anteriormente, ainda na infância, o avô sentava-se com ele na sua quinta mostrando-lhe e falando-lhe sobre as plantas e os animais como parte integrante da vida. Outras três pessoas foram de capital importância para Casimiro de Brito: o pai que tinha a particularidade de se expressar por frases curtas ou mesmo por provérbios. A mãe era o oposto; falava todo o dia e António Aleixo, frequentador assíduo de sua casa ainda em Loulé, onde dizia as suas quadras. Assim sendo, a influência paterna deu-lhe a capacidade de facilmente descodificar textos e escrever de forma sintetizada. A materna despertou nele precisamente o oposto: facilidade em desenvolver temas escrevendo obras extensas como o romance Pátria Sensível, e finalmente Aleixo que, provavelmente de forma não consciente, o instigou a desenvolver as suas capacidades de escrita.
Aos dez anos ele e a família mudaram-se para Faro com o intuito de Casimiro poder continuar estudar


ANTÓNIO ALEIXO












SOLIDÃO IMPERFEITA (1957) – Noite por Ti Despida

(CASIMIRO DE BRITO)

Adulta é a noite onde cresce
o teu corpo azul. A claridade
que se dá em troca dos meus ombros
cansados. Reflexos
coloridos. Amei
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada
sem fim. Canto apenas (enquanto álamos
amadurecem) a transcendência, o caminho. A noite
por ti despida. Lume e perfume
do sol. Íntimo rumor do mundo.








Deixo aqui um excerto biográfico do próprio poeta apresentado no Jornal de Letras em 19 de Julho de 2006 , relacionado com a sua infância e juventude, confirmando o que anteriormente escrevi, intitulado - Autobiografia : Entre o Caos e o Canto:

“Foram três as primeiras escutas humanas: o pai, que só falava por frases curtas e provérbios, coisas enigmáticas (havia que decifrar, e isso entrou depois no meu trabalho); a mãe, que palrava dia e noite, desenvolvendo as falas do pai (o que se tornou uma referência de fundo na minha escrita: uma ideia poética pode resumir-se num breve poema ou alargar-se num romance; (…) por fim o convívio com António Aleixo, o poeta popular que todos os dias ia a minha casa, uma casa de comércio, um lugar público, com uma quadra nova onde música e conceito se casavam rigorosamente (…) “.

Em 1957 conheceu António Ramos Rosa e em conjunto publicaram Cadernos do Meio-Dia.


ANTÓNIO RAMOS ROSA




Por essa altura o Governo Salazarista começou a ter problemas com as Províncias Ultramarinas que iniciavam as suas lutas pela independência, vendo-se o Estado obrigado a enviar tropas da Metrópole para lá. Casimiro de Brito desfavorável à sujeição africana em relação a Portugal negou-se a combater fugindo do país, como tantos outros com as mesmas convicções políticas o fizeram, indo para Londres onde viveu até 1968 tendo sido convidado a frequentar o prestigiado Westfield College, mais propriamente no ano de 1958, cruzando-se com um professor de estudos orientais que o iniciou na poesia japonesa a qual o fascinou de tal forma que acabou por fazer ele próprio os seus Haikus os quais são curtos poemas japoneses de três versos, carregados de significado.

Não te canses, mosquito,
voando da luz para a sombra.
Pousa no meu coração

Levo para a montanha
meus rios interiores.
Perdem-se com os ouros.

Mais tarde foi para a Alemanha e a partir daí começou a viajar quase compulsivamente.

Casimiro de Brito identificou-se e integrou-se com os escritores de vanguarda ou experimentalistas e colaborou na Antologia Poesia 61, como já referi.
Noutros trabalhos já falei sobre este género literário, como o de Fiama Hasse e Luiza Neto Jorge, não vou, portanto, alongar-me muito mais na sua explicação. Consistia basicamente na utilização da palavra “colada” ao objecto, semelhante a uma redundância ou, uma espécie de “retorno às origens gráficas” de forma intelectualizada onde a palavra era rainha, tanto em tratamento como em imponência.
O poeta participou neste projecto com CANTO ADOLESCENTE, do qual apresento o poema Da Música.




Da Música

A música derrama-se
no corpo terroso
da palavra. Inclina-se
no mundo em mutação
do poema.

A música traz na bagagem
a memória do sangue; o caminho
do sol: Lume e cume
de palavras polidas.

A música rompe num rio de lava
por si mesmo criado . Lágrima
endurecida
onde cabem o mar
e a morte.

Recebeu variadíssimos prémios dos quais citarei alguns:

1981 – Grande Prémio de Poesia (Associação Portuguesa de Escritores)
1985 – Melhor Obra Completa Estrangeira (Prémio Versilia de Viareggio)
1997 – Prémio Pen Club.

Como viajante do mundo conheceu a paixão e o amor, logo grande parte da sua poesia apresenta-se bastante erotizada, umas vezes de cariz bem carnal ouras mais lirica. Ora vejamos dois excertos do livro - 69 poemas de amor:

Virilha contra virilha
reconstruo o meu corpo
colado ao teu. Choro.
Não estás a meu lado.
Virilha contra nádega
asas de salvação efémera
reconstruo o teu corpo
junto ao meu. Choro.(...)

Adormecer
assim: inclinado
sobre o rio
em repouso.
A mão esquerda
cai em palma
no crânio; a boca
no ombro no aroma da pele; (...)

Para terminar esta pequena homenagem a Casimiro de Brito deixei para o fim o que considero de grande significado. No ano de 2008 foi nomeado Embaixador Mundial da Paz (ONG Zurique – Suíça), sendo agraciado pelo Presidente da República Portuguesa com a Ordem do Infante D. Henrique, e com todo o mérito, pois ele é realmente um homem da PAZ.






JARDINS DE GUERRA – Peço Paz

Peço paz
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento

Peço paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão

Peço paz
silenciosamente
a paz a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte

A paz peço
a paz apenas
o repouso da luta do barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol

Peço a paz e o
silêncio.

Trabalho feito por Liliana Josué

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