CONTADOR

domingo, 4 de janeiro de 2015




EU VI UM SAPO…

(Texto dedicado ao Hospital de São José)

Joana, minha amiga desde o tempo das fraldas,  sempre teve problemas asmáticos. A sua infância e juventude foram bastante acidentadas por esse mesmo facto, embora tivessem existido períodos de acalmia com muita felicidade e brincadeira. Apesar de tudo, era uma miúda cheia de vida e entusiasmo. Franzina mas rija.
Lembro-me de quando a ia visitar nas alturas das crises asmáticas, acamada e sem qualquer possível tratamento (pois naquele tempo não havia os recursos que existem  hoje), apenas mezinhas caseiras como os pachos de algodão embebido em álcool ou papas de linhaça colocados, com duvidosas esperanças de melhoria, sobre o peito. Os lábios tornavam-se roxos apertados pela boca cerrada, narinas muito abertas e silvos saltando do peito, o qual parecia um fole nervoso e descompassado. Não conseguia falar.
Por vezes sentavam-na à janela do quarto para apanhar ar. O pai chegou a levá-la de carro , já um tanto “démodé”, abrir as janelas e correr com ela a cidade para que o vento lhe batesse forte na cara e ela se sentisse melhor. Hoje sabemos que isso nada faz, mas naquela época não, naquela época aquilo tinha de lhe fazer bem ou pelo menos fazê-la sentir melhor.
A situação embrulhava-me em tristeza e até em algum medo mas, mesmo assim, gostava de estar com ela. Lia-lhe livros de contos de fadas adornados com lindos desenhos que a minha amiga tanto gostava de colorir, ou lia páginas da coleção “As  Aventuras dos Cinco”, cuja  a personagem Zé era disputada por ambas. Falava-lhe do meu gato amarelo ou do cágado que eu tinha no meu quintal, e também do meu vizinho guloso que me espreitava pelas janelas . Algumas vezes acompanhava-a no seu choro amargo e aflito, mas o meu era discreto para não a assustar ainda mais.
Já mais crescida, ou mesmo adulta, aquela erva daninha e corrosiva enraizada no seu peito abrandou as tenazes e a minha amiga tornou-se muito menos receosa, caminhado pela vida com um passo quase firme. Divertíamo-nos com imensas coisas, uma delas era fazermo-nos passar por estrangeiras nos parques da cidade, e muita gente acreditava. Eu era uma rapariga alta e de formas bem marcadas, dava nas vistas. Sem ser bela tinha um gracioso palminho de cara, não desvalorizando a minha inteligência que igualmente fazia parte do meu charme. A Joana era baixa, magra, pele muito branca, sardas no rosto, olhos esverdeados um pouco tristes, mas bonitos, e um invejável cabelo arruivado, mas era o seu sorriso que nos enternecia a alma. Quanto à sua inteligência também era patente, no entanto diferente da minha, era mais observadora e intuitiva.  Os rapazes rondavam-nos como gatos com cio, e nós apimentávamos a situação fingindo-nos não portuguesas, os nossos tipos davam para fazer isso. Eles arregalavam os olhos enquanto perguntavam de risinho cobiçoso: “Vocês são francesas…   ? inglesas…? alemãs…?” .
O tempo foi passando e agora já maduras aminha amiga voltou a ter crises asmáticas bastante violentas. O horizonte voltou a tornar-se triste e cinzento. Ontem deu entrada, de urgência, num hospital público. Foi rapidamente atendida, quanto a isso nada a dizer, fizeram-lhe todo os exames médicos considerados necessários e aplicaram-lhe os tratamentos mais indicados. Até aqui tudo bem, apesar do seu mal, mas depois… .
Como sua acompanhante estive quase sempre junto dela, pois até dá jeito para ajudar. O seu corpo arquejante afundou-se na cadeira embrulhado em toda uma parafernália de equipamentos médicos, alguns deles colocados por ela própria, por exigência dos serviços, mas ela não sabia que assim que tinha de ser. Ouvi um voz ao fundo: “então quando coloca o tubo do oxigénio no nariz? Está sentada mesmo em cima dele”.  A minha amiga meio amedrontada e admirada procurou fazer desajeitadamente o que lhe diziam. Eu, infelizmente, também pouco podia acrescentar quanto ao manuseamento dos utensílios visto ainda menos perceber do assunto. Mas até se percebia tanto mau humor do pessoal pois o trabalho era muito e para além do mais estava-se num domingo. Caramba, que chatice ter de se estar ali no domingo, ainda por cima tudo gente nova que o que mais queria era estar a dormir ou a divertir-se, ou mesmo a namorar! Não compreendi o porquê mas realmente eram todos muito jovens, onde estariam  os mais velhos? Se lá se encontrassem alguns até podia ser que tivessem um pouco mais de mais paciência, quem sabe…? Sim, quem sabe…?. Joana fechou os olhos lacrimejantes aguardando meio resignada pelo bom sucesso dos tubos, fios e frascos enquanto eu ia observando todo aquele espetáculo.
Volta e meia uma idosa gritava com dores na perna e agonias. Muito chata, é certo, mesmo muito chata, mas também muito idosa. Como o seu “show” não pegava resolveu então fazer uma voz doce e melada de submissão canina dizendo: “ ó minha querida, não me arranja uma pomadinha e dava-me uma massagem na perna?”. A funcionária que se situava mais perto dela olhou-a furiosa e disse: “fricção, eu…? eu…? eu…?” e virou-lhe  as costas indignada. Mas talvez até fosse por bem que ela não lhe fez a fricção, quem sabe…?
Outro idoso que mal se podia mexer, e mesmo sentado se apoiava numa bengala tinha uma bata vestida, daquelas próprias dos hospitais feias e deprimentes, era esquelético , feio e um nadinha rezingão, pretendia com muito custo, ajustar a mesma aos ombros pois a dita tinha-lhe  sido vestida à pressa. Dizia com cara de poucos amigos: “tenho frio”. Ora lá estava outro chato! E não queriam que os pobres funcionários se aborrecessem, mas que abuso e falta de compreensão. É claro que o débil protesto pouco lhe adiantou, ficaria mesmo assim, desconfortável e com frio se o vizinho do lado, também ele idoso e muito doente, não lhe tivesse estendido a mão e a muito custo o ajudasse a puxar um pouco mais a bata. Eu senti-me bastante indignada comigo própria por nada fazer, mas estava a acompanhar a minha amiga e não as outras pessoas que não tinham ali os acompanhantes, para além do mais tinha medo de ofender os funcionários, de modo que os meus pés não se descolavam do chão.
Uma outra senhora igualmente de provecta idade queria ir à casa de banho, pediu muitas vezes, mas  muito tempo teve de esperar. Até que um auxiliar mal encarado chegou com uma cadeira de rodas e puxando-a por um braço a quis levantar e sentar na dita (até eu sei que não é assim que se agarra uma pessoa sem forças), mas pelos vistos o pobre homem não sabia, coitado, não sabia, e então…? e quase berrando à mulherzinha disse-lhe: “ olhe que se não se segura bem cai aqui mesmo”. E não é que ia caindo mesmo!..?  tal como um outro tinha caído noutra cadeira de rodas?! Mas aí, sejamos honestos, a culpa tinha sido da cadeira pois rompera-se sozinha. Um segundo auxiliar viu a sena  e deu uma ajuda mais vigorosa à senhora. Entretanto a tal funcionária histérica remoía entre dentes: “estão mal é habituados, têm é muitos luxos.” No entanto eu achava curioso que em certas alturas esta mesma funcionária olhava para mim e atirava-me um sorriso de compaixão e simpatia, eu correspondia não fosse ela zangar-se. Muito mais eu vi e a minha amiga também, instalando-se dentro de nós uma revolta silenciosa e comungada.

Hoje fui visitá-la a casa, está melhor felizmente, e vai ficar totalmente restabelecida, certamente. Os olhos deixaram de estar mortiços e o peito sem chiadeira nem solavancos. Tudo estava a entrar na normalidade, mas a nódoa negra marcada a socos nos nossos corações por aquele hospital, essa, não vamos conseguir curar.

Liliana Josué



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